Vivemos hoje em uma sociedade tão superficial, mas tão superficial que dá até medo de atravessar na faixa com o sinal aberto para o pedestre. São tantos pseudo-motoristas zanzando por aí com a atenção voltada pra mensagem no celular, pro feed daquela gatinha, pro stories daquele coaching cabuloso. Até mesmo pro áudio de auto-ajuda que chega no grupo da família. Mas não é só dos motoristas que dá medo. Uma trombada de frente com um desavisado à pé também sabe doer... As pessoas estão andando como robôs nas ruas. Perde-se a noção do tempo, do espaço e perde-se até mesmo a vontade própria. Todos querem viver a vida do outro. Daquele saradão do @fitness ou daquela poderosa do @mulherao. Hoje mede-se a importância de uma pessoa não pelos seus feitos honrosos ou méritos, mas sim pela quantidade de seguidores. Pode ser um "cabra sem noção que só fala bobagem", mas se tiver mais de cem mil likes num vídeo onde só diz asneiras, o cara é foda! Ah, e milionário, diga-se de passagem. É tanta gente fazendo sucesso na internet que nem dá mais pra saber quem é sério, quem faz pesquisa antes de postar e realmente se preocupa com a dimensão que aquilo irá tomar. Os rumos são desconhecidos e a tragetória, muitas vezes, faz vítimas silenciosas. Diga-se de passagem a criançada que hoje só brinca como criança quando está na escola (a contragosto), pois preferem navegar na rede. A propósito, você mamãe, você papai, sabe o que seu filhotinho anda vendo? Bom, melhor não aprofundar nisso porque esse assunto dá pano pra manga e merece um textinho exclusivo. E hoje também eu não tô a fim de "caçar confusão" com ninguém (porque é isso que acontece quando você se mete na criação do filhinho dos outros...). Então, voltando ao tema, essa internet! Ah... essa internet. Essa tal World Wide Web que possibilitou tudo isso. Alguém já parou pra pensar em como tudo começou? Como que isso funciona? Como é possível que você, um simples mortal, possa fazer uma "live" da sua cozinha enquanto faz aquela receita top de pipoca gourmet e o mundo inteiro poder assistir em tempo real? Até pouquíssimo tempo atrás uma "entrada ao vivo" na TV era coisa exclusiva dos canais mais abastados do mundo. Hoje é coisa inserida no cotidiano meu, seu e até do cachorro popstar que não late, mas lafe! Deixo aqui então uma sugestão de algo bom de se fazer ao invés de ficar procurando algo pra criticar no feed alheio: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_Internet. Sei que pouquíssimos vão se interessar, mas pelo menos estou deixando algo de útil, afinal, conhecimento nunca é demais. E antes que digam que essa é uma crítica às redes sociais, já de antemão os corrijo, mesmo porque esta pessoa que vos escreve é tão ciberdoente quanto todos os outros. Só estou explanando aqui minha teoria sobre o quanto as coisas estão fora de controle e os objetivos das pessoas vão muito mais ao encontro daquilo que elas não querem do que aquilo que elas realmente nasceram pra ser. Afinal, muitas vezes aquilo que se nasceu pra ser não aparece nas listas dos gurus da internet. Temo pelo futuro que nos espera, pelas pessoas cada vez mais fúteis, alienadas, dizendo nada com nada, "entendendo" tudo e mais um pouco daquilo que não estudaram pra aprender. Temo pela minha sanidade, pela minha paz de espírito, pela minha integridade física. Temo por muitas coisas que já começam a ficar "normais". Digo a você que lê minhas humildes palavras: cuidado! Sem você perceber, aquela árvore centenária que tinha na esquina da sua casa não mais existirá e, um dia, quando alguma brisa leve soprar no seu rosto e o fizer desviar o olhar do celular, você verá que ali, onde tantas vezes você subiu pra esconder no pique-esconde, agora tem é uma caçamba cheia de entulho da construção barulhenta (que aliás você nem tinha percebido que começara).
Adriana Regina
Dri Escrevinhando
A escrevinhadeira feliz
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
A Escutatória
“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil…
Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer…
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as ideias estranhas). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto. Ouçamos os clamores dos famintos e dos despossuídos de humanidade que teimamos a não ver nem ouvir. É tempo de renovar, se mais não fosse, a nós mesmos e assim nos tornarmos seres humanos melhores, para o bem de cada um de nós.
É chegado o momento, não temos mais o que esperar. Ouçamos o humano que habita em cada um de nós e clama pela nossa humanidade, pela nossa solidariedade, que teima em nos falar e nos fazer ver o outro que dá sentido e é a razão do nosso existir, sem o qual não somos e jamais seremos humanos na expressão da palavra.
Rubem Alves
quarta-feira, 29 de junho de 2016
Esvaziando os Armários de Nossa Vida
Todos os anos há um momento em que olhamos nossos armários com um olhar crítico. Olhamos aquelas roupas que não usamos há muito tempo. Aquelas que tiramos do cabide de vez em quando, vestimos, olhamos no espelho, confirmamos mais uma vez que não gostamos e guardamos de volta no armário. Aquele sapato que machuca os pés, insistimos em mantê-lo guardado. Há ainda aquele terno caro, mas que o paletó não cai bem, ou o vestido "espetacular" ganho de presente de alguém que amamos, mas que não combina conosco e nunca usamos. Às vezes, tiramos alguma coisa e damos pra alguém, mas a maior parte fica lá, guardada, sabe-se lá porquê.
Um dia alguém me disse: tudo o que não lhe serve mais e você mantém guardado só lhe traz energias negativas. Livre-se de tudo o que não usa e verás como lhe fará bem.
Acontece que nosso guarda-roupas não é o único lugar da vida onde guardamos coisas que não nos servem mais. Você tem um guarda-roupas desses no interior da mente. Dê uma olhada séria no que anda guardando lá. Experimente esvaziar e fazer uma limpeza naquilo que não lhe serve mais. Jogue fora ideias, crenças, maneiras de viver ou experiências que não lhe acrescentam nada e lhe roubam energia. Faça uma limpeza nas amizades, aqueles amigos cujos interesses não tem mais nada haver com os seus.
Aproveite e tire do seu armário aquelas pessoas tóxicas, negativas, sem entusiasmo, que tentam lhe arrastar para o fundo dos seus próprios poços de tristezas, ressentimentos, mágoas e sofrimento. A insegurança dessas pessoas faz com que busquem outras para lhes fazer companhia. E lá vai você junto com elas... Junte-se a pessoas entusiasmadas, que o apoiem em seus sonhos e projetos pessoais e profissionais. Não espere um momento certo, ou mesmo o final do ano, para fazer essa "faxina interior". Comece agora e experimente aquele sentimento gostoso de liberdade.
Liberdade de não ter que guardar o que não lhe serve. Liberdade de experimentar o desapego. Liberdade de saber que mudou, mudou pra melhor, e que só usa as coisas que verdadeiramente lhe servem e fazem bem.
WILSON MEILER
terça-feira, 1 de março de 2016
A paz que o amor traz
Chega um dia na vida em que a gente entende de vez que nada é por acaso, nada é à toa. Tudo tem um sentido, um propósito, uma razão. Nem que seja pra fazer você aprender, na marra, a andar na linha, a não se arriscar demais, a não pular de olhos fechados em qualquer piscina, pois ali pode haver muito mais gelo que água! E é nesse dia que você percebe o quanto Deus é bom, o quanto Ele te permite crescer sem que você saiba. Quando você se dá conta, já não é mais tão ingênua, já não acredita tão facilmente nas palavras e aprende a avaliar as atitudes, os exemplos, o caráter. E começa então a abrir mão da presença de certas pessoas na sua vida, pois entende que elas não são tão necessárias assim, como você acreditava. Afinal, agora você pode ver que caminhava pra trás, ao invés de avançar. No fundo, no fundo você sabe que a culpa nem é delas, mas sim dessa conexão entre vocês que não era pra ser. E aí vem Deus de novo e te mostra que é Ele que sabe das coisas e não você. É Ele que tem os planos certos, que tem tudo já esquematizado e você só sofre porque quer. Afinal, tudo tem seu tempo, sua hora e não adianta você querer mudar isso. Você pode até se desviar do caminho, tomar rumos estranhos, andar lado a lado, mas em sentidos opostos. Sim, você pode. Ele te permite isso. Ele te permite tudo que você quiser, nem que seja, repito, somente para aprender algo nessa vida. Mas aí um dia acontece o milagre e você se depara com novos sentimentos, novos sorrisos, novas alegrias, novos sonhos. E aquilo que não fazia sentido pra você se torna tão real, tão possível que tudo volta a ser simples, bonito, verdadeiro. Somente porque existe algo maior, algo que se agiganta diante de qualquer tempestade. Algo tão nobre, tão puro, tão lindo. Algo chamado AMOR! É o que muda a vida da gente, que muda nossa forma de agir, de pensar. Que nos faz enxergar o invisível, que nos transporta para além de nossa realidade. E nos traz de volta, sãos e salvos, prontos pra enfrentar qualquer batalha. Amor que não se explica, que não se justifica. Somente se sente. E se tem paz. Simplesmente!
Adriana Regina
01/03/2016
Adriana Regina
01/03/2016
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Tintim
Durante alguns anos, o tintim me intrigou. Tintim por tintim: o que queria dizer aquilo? Imaginei que fosse alguma misteriosa medida de outros tempos que sobrevivera ao sistema métrico, como a braça, a légua, etc. Outro mistério era o triz. Qual a exata definição de um triz? É uma subdivisão de tempo ou de espaço. As coisas deixam de acontecer por um triz, por uma fração de segundo ou de milímetro. Mas que fração? O triz talvez correspondesse a meio tintim, ou o tintim a um décimo de triz. Tanto o tintim quanto o triz pertenceriam ao obscuro mundo das microcoisas. Há quem diga que não existe uma fração mínima de matéria, que tudo pode ser dividido e subdividido. Assim como existe o infinito para fora - isto e, o espaço sem fim, depois que o Universo acaba - existiria o infinito para dentro. A menor fração da menor partícula do último átomo ainda seria formada por dois trizes, e cada triz por dois tintins, e cada tintim por dois trizes, e assim por diante, até a loucura.
Descobri, finalmente, o que significa tintim. É verdade que, se tivesse me dado o trabalho de olhar no dicionário mais cedo, minha ignorância não teria durado tanto. Mas o óbvio, às vezes, e a última coisa que nos ocorre. Está no Aurelião. Tintim, vocábulo onomatopaico que evoca o tinido das moedas. Originalmente, portanto, "tintim por tintim" indicava um pagamento feito minuciosamente, moeda por moeda. Isso no tempo em que as moedas, no Brasil, tiniam, ao contrário de hoje, quando são feitas de papelão e se chocam sem ruído. Numa investigação feita hoje da corrupção no país tintim por tintim ficaríamos tinindo sem parar e chegaríamos a uma nova concepção de infinito.
Tintim por tintim. A menina muito dada namoraria sim-sim por sim-sim. O gordo incontrolável progrediria pela vida quindim por quindim. O telespectador habitual viveria plim-plim por plim-plim. E você e eu vamos ganhando nosso salário tin por tin (olha aí, a inflação já levou dois tins). Resolvido o mistério do tintim, que não é uma subdivisão nem de tempo nem de espaço nem de matéria, resta o triz. O Aurelião não nos ajuda. "Triz", diz ele, significa por pouco. Sim, mas que pouco? Queremos algarismos, vírgulas, zeros, definições para "triz". Substantivo feminino. Popular. "Icterícia." Triz quer dizer icterícia. Ou teremos que mudar todas as nossas teorias sobre o Universo ou teremos que mudar de assunto. Acho melhor mudar de assunto. O Universo já tem problemas demais.
(VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 69.)
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