Ano: 1997
Eis que, num belo domingo de sol, estava eu com meus inseparáveis amigos Dimilso, Marimar e Vaninha na praia do Nozinho, um belo recanto às margens do Rio Pará, em Martinho Campos. Por lá ficamos o dia todo tomando cerveja, nadando, conversando, enfim, aproveitando e muito bem a nossa juventude. Chegada a hora de voltar pra Badia, vi que passava das 18h e que daria tempo de chegar em casa, tomar banho e ainda ir à missa (minha mãe sempre queria que eu fosse à missa). Então tive a brilhante ideia de chamar meus quatro cúmplices pra jogar sinuca num bar até passar a hora do começo da missa. Assim fizemos, o quarteto. Então, lá pelas 19:30h, resolvemos ir pra nossas casas, felizes da vida. Eis que fui guardar o taco no suporte na parede, onde havia, estrategicamente colocado sobre ele, outro suporte, porém contendo uma imensa caixa de som daquelas pretas quadradas que devem pesar uns 40 quilos... Não é que, por azar, ironia do destino ou sei lá o quê, eu cutuquei a caixa de som com o taco de sinuca e a dita cuja veio de encontro à minha cabeça? De ponta! Senti uma dor lancinante e o sangue correndo no meu rosto. Não sei porque cargas d'água, mas a mulher do bar pegou o pano de limpar balcão e veio querendo estancar o sangue com ele. Acho que foi só por isso que não desmaiei, com medo de ela colocar aquele pano imundo na minha cabeça e piorar ainda mais a situação... não desmaiei de aperto!!! Fomos todos pro hospital e lá foram cinco pontos lindos que recebi. Imaginem... Aí, já em casa, tive que aguentar a zoação dos meus lindos irmãos Cláudia, Nice e Euler falando que eu estava linda com a cabeça suja, cheia de areia, com uma área raspada e ainda com aqueles cinco pontos super bem feitos se destacando bem acima da testa! Mas pior mesmo foi quando minha mãe chegou. Depois de se recompor do susto de ver a caçula naquele estado, só uma frase lhe saiu da boca: "Também, não vai à missa... não reza..."
Ai, meu Deus, como se não bastasse, aquela era semana de prova e na segunda-feira tinha prova de português com ninguém menos que a mais implacável das professoras, famosa pela sua rigidez e exigência de disciplina. Pensei: não posso faltar e simplesmente pedir pra fazer a prova depois. Mas como vou assim pro colégio, com a cabeça suja de uma mistura de areia e sangue... Eu não podia lavar a cabeça ainda!!! Bom, fui assim mesmo, depois que a Cláudia fez uma pequena limpeza que deu pra diminuir um pouco a feiura. Chegando na sala, depois de contar umas 587 vezes pros meus colegas o que me havia acontecido, chegou a hora da prova. A professora entrou na sala e começou a distribuir as provas. Ao chegar à minha mesa, notei que ela havia parado e que estava me olhando. Pensei: vai me liberar, claro! Hum... santa inocência! Depois de uns cinco segundos ali, parada, ela simplesmente colocou a prova na minha carteira e continuou a distribuir pra galera. Eu não acreditei naquilo... Eu estava visivelmente prejudicada pra fazer a tal prova, mas ela nem perguntou se eu estava bem. Nenhuma curiosidade. Nada. Fiquei tão *¨#%$@* que fiz a prova como se fosse a coisa mais importante da minha vida. Esqueci da dor, do cheiro ruim que ainda permanecia, da feiura! Concentrei toda a minha atenção naquelas questões e terminei antes de todo mundo. Entreguei a prova e saí da sala, sem pedir permissão. Fui à diretoria pedir pra ir embora e, pra minha surpresa, fui questionada sobre o que fazia ali. Que nem deveria ter ido naquele estado! Bom, eu só disse: tinha prova com fulana de tal... explicado! Fui liberada e pude fazer as outras provas dias depois.
Sobre o resultado da prova? Não lembro se fechei, se quase fechei. Lembro que minha nota foi a maior da sala e até hoje me lembro com perfeição do semblante da professora quando leu minha nota. Ela sabia... sabia que eu era capaz. Ela era durona, é ainda. E graças a ela a formação de muitos alunos em Martinho Campos é tão boa em português e literatura. Agradeço a ela por não ter afrouxado a corda, por ter sido rígida, implacável. Não vou dizer o nome porque não seria ético, mas quem foi seu aluno e estiver lendo este post sabe de quem se trata. Obrigada, M. A senhora contribuiu e muito para a minha formação.
Sobre os cinco pontos? Bom, esses eu tirei quinze dias depois, mas a cicatriz ficou pra sempre...
Quanto aos meus amigos Dimilso, Vaninha e Marimar? Bom, esses estão guardados no lado esquerdo do peito e tudo o que vivemos ficará eternizado na lembrança.
Quanto à missa aos domingos? Bem que eu tentei ser mais assídua e tal... mas gente, pra ir à missa não é simplesmente ir. Tem que ter vontade de ir. E eu só vou quando tenho vontade. Minha mãe fica um tantinho triste com isso, mas... ela entende e reza por mim!!!
Quanto aos meus irmãos... esses continuam rindo até hoje... mas eu os amo incondicionalmente!
Adriana Regina



