Entrei
no ônibus hoje e estava bem vazio, mas é porque era o início do seu
trajeto. Minha carona pro centro não foi trabalhar hoje. Boa tarde! Boa
tarde! Engraçado mas nós, mulheres, pelo menos a grande maioria de nós,
cumprimentamos o motorista e o cobrador. Já os homens, tenho notado,
raramente o fazem. Não entendo o porquê disso. Há vários lugares vazios,
mas vou lá pro fundo, pro último assento.
Aquele da fileira de cinco lugares. O ônibus vai lotar e como as
pessoas teimam em se alojar mais à frente, sempre fica um bom espaço
vazio no final do ônibus, onde sobra mais ar respirável! As caras são as
mesmas de sempre. Típicos rostos desanimados de segunda-feira.
Interessante como os grupos se comportam igual. Tem os que dormem, os
que ouvem alguma coisa nos seus fones de ouvido (e que fones!!!). Outros
lêem, mesmo no saculejar do ônibus. Eu não consigo. Minha cabeça dói. E
há os que olham pro nada. Ou pro tudo, vai saber. O senhor negro, com
poucos cabelos e brancos e óculos de armação vermelha entra no ônibus.
Não sei o porquê, mas simpatizo com esse homem desde o primeiro dia que o
vi. Mesmo sem nunca ter trocado uma palavra com ele. Parece boa gente.
Ele senta e abre seu jornal, aquele de tragédias. De repente o silêncio é
interrompido por um grupinho de aborrecentes, quer dizer, adolescentes
estudantes. Dois rapazes e três mocinhas. Eles entram falando alto,
rindo demais, mas demais mesmo. E vem justamente pra trás. E não se
sentam mesmo porque não há mais assentos livres. Eles estacionam na
porta de trás. Ficam lá, os dois meninos nos degraus só pra atrapalhar
quem for descer. E falam... e falam... e riem... e gritam. O senhor
negro, com poucos cabelos e brancos e óculos de armação vermelha desiste
de ler e fecha seu jornal. Resolvo ouvir rádio. Jogo da seleção ainda.
Quando saí estava 1 a 0 pra Rússia, mas o Brasil tinha empatado. Fiquei
ouvindo o final do jogo, à espera da virada. Outra coisa que não entendo
é por que tem tantos brasileiros que torcem contra o Brasil. Eu sou
brasileira e sempre vou torcer pela minha bandeira, ué! Enfim, termina o
jogo em 1 a 1 mesmo. Mudo pra outra rádio. Programa de humor. Muito
bom, sempre ouço. Começo a rir e esqueço completamente dos cinco
falantes. Quando de repente tomo um susto porque já estou no centro da
cidade. Que bom, vou chegar cedo em casa. A essa altura o ônibus já está
lotado e já são muitas vozes que se misturam, muitos odores, inúmeras
expressões. Nas ruas, pontos lotados, faixas de pedestres abarrotadas de
gente de esbarrando, motoristas impacientes e motoqueiros sem amor à
vida. O senhor negro, com poucos cabelos e brancos e óculos de armação
vermelha guarda o jornal na bolsa à tira-colo. Uma mulher de meia idade
implica com os dois meninos falantes estacionados nos degraus. Ela quer
sair. E eles lá! Ai... paciência! O ônibus já vai sair do centro e agora
vai começar a parar em todos os pontos. Eles poderiam tanto sentar,
afinal, já há assentos livres. Começa a voz do Brasil. Continuo ouvindo
porque... nem sei o porquê. Só continuo com o rádio ligado, acho. O
senhor negro, com poucos cabelos e brancos e óculos de armação vermelha
dá sinal. Ele desce no ponto antes da virada pro meu bairro. Sempre
cordial, sorri pros cinco e pede licença. Desce. Junto com ele mais três
pessoas. Um dos garotos começa uma brincadeira de mau gosto com o
fichário da menina. Ela não gosta. Aliás, ela fica furiosa. Será por
causa do conteúdo do fichário ou por causa da foto do cara do crepúsculo
que tem na capa? Mais provável... Gente, a menina está quase chorando!
Passo em frente a pizzaria e olho lá pra dentro. Tem bastante gente.
Animados eles! Em plena segundona, num friozinho gostoso pra ficar em
casa. Eu não animaria. A não ser que pintasse um convite! Mas esquece...
o mar não está pra peixe... Está chegando minha vez de descer. Mais
dois pontos. A menina fã do vampiro desce. Os dois sossegam. Só restam
eles agora. As outras duas, nem vi descerem. Pego as chaves de casa no
bolso externo da bolsa, meio suja já. Dou sinal e também tenho que pedir
licença... Desço no mesmo ponto de todos os dias e rumo pra casa.
Termina aí o ciclo do meu dia. Agora inicia minha noite solitária, com
meus pensamentos, meus desejos, minhas lembranças. Agora sou só eu
comigo mesma.
Adriana Regina
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